Entre o raio e a palavra: cognição e emoção na emergência da consciência em contextos de trauma
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Este artigo propõe uma reflexão da interdepência essencial entre a emoção e a cognição, utilizando como lente de análise as teorias de Stiven Pinker, especialmente no capítulo 6 “Desvairados” da obra Como a Mente Funciona, e de Antônio Damásio, com base no capítulo I – SENTIR & SABER – AS ORIGENS DA CONSCIÊNCIA. A reflexão ancora-se em um relato autobiográfico singuar: Uma criança, em meio ao luto profundo pela perda repentina do pai no primeiro dia de aula. Mergulha em um ambiente familiar analfabeto e isolada do sistema escolar por um ano, a criança, munida unicamente da cartilha “O Tufão”, envolveu-se em um intenso e solitário processo imaginário – criando narrativas, personagens e cenários – que resultou na aquisição da leitura e da escrita sem instrução formal. Argumenta-se que este fenômeno ilustra duas teses complementares: 1) Na perspectiva de Damásio, (Cap. I) o trauma desestabilizou violentamente a homeostase ( a regulação da vida), gerando um sentimento de dor e caos. A jornada cognitiva para a alfabetização representa a passagem do puro sentir para o desenvolvimento de um saber complexo, uma sofisticada estratégia para restaurar a ordem interna e a previsibilidade. 2) Em consonância com a perspectiva de Pinker (Cap. 6, “Desvairados”), a emoção avassaladora do luto funcionou não como um bloqueio, mas como um poderoso mecanismo computacional adaptativo, estabelecendo uma meta de alta ordem para essa estratégia: encontrar sentido e controle. O profundo trabalho imaginativo com a cartilha foi o mecanismo computacional através do qual a mente, impulsionada pela necessidade primária de sentir-se segura, executou a tarefa de decodificar a linguagem. O caso demonstra de forma contudente que a emoção é uma força motriz e estruturante, capaz de catalisar saltos cognitivos extraordinários e de moldar a própria arquitetura da mente consciente.